Caetano Veloso: “Neste momento, a preocupação predomina em mim; o Brasil parece incapaz de salvar a si mesmo”

Entrevista para o El País (1° de junho de 2026)

Por Miguel Ángel Bargueño

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Foto: Jota Erre (AGIF via AFP / Europa Press)

Caetano Veloso, em uma videochamada de Lisboa, Portugal, fala lentamente com aquela mistura de clareza intelectual e melancolia baiana que, por seis décadas, transformou cada uma de suas entrevistas em algo mais próximo de uma conversa filosófica do que de uma simples divulgação de novos álbuns ou concertos. Aos 83 anos, o celebrado músico brasileiro embarca numa turnê intitulada Caetano nos festivais, que passará por Madri em 4 de junho e que ele próprio descreve, sem dramatização, mas com honestidade, como talvez sua última visita à Espanha. Isso apesar da estreita relação que sempre manteve com a cultura espanhola. Não há nostalgia grandiosa em suas palavras; há, antes, um cansaço físico, uma resignação sábia, preocupação política e uma visão amarga — embora ainda não derrotada — do presente. Ele fala, sem perder a paixão, sobre a ditadura militar que seu país sofreu, sobre o Vale do Silício, os Beatles, a confusão contemporânea e um Brasil que, apesar de tudo, ainda acredita poder “dizer algo ao mundo”.

Pergunta. Como você está encarando esta turnê? Sua relação com a voz e com o palco mudou muito ao longo dos anos?

Resposta. Estou velho [risos], então cheguei a Lisboa e fiquei aqui alguns dias antes de cantar no Porto; depois voltei para cá e mais tarde seguirei para Madri. Acho que isso tornará tudo possível. Antes eu chegava aos lugares e saía para conversar, comer, passear... Desta vez não estou me movimentando tanto, quero me sentir mais descansado.

P. Muitas pessoas acreditam que estes podem ser seus últimos concertos na Espanha. O próprio senhor sugeriu isso em um vídeo no Instagram.

R. Não penso exatamente dessa maneira, mas acredito que não é fácil imaginar fazer longas viagens nesta fase da vida. Quando eu voltar ao Brasil, talvez já não queira viajar para lugares distantes. Embora nunca se saiba. Roberto Menescal [músico da bossa nova], que tem 88 anos, costumava dizer que nunca mais voltaria ao Japão porque é muito longe... e agora talvez vá novamente. No meu caso, não é algo tão definido.

P. Isso muda a forma como você planeja um concerto? Uma apresentação que pode ser “a última” não é igual a apenas mais um show.

R. Este concerto reflete basicamente o que tenho feito no Brasil ultimamente. Mas a seleção de músicas é muito atual, porque são canções fortes que confrontam os absurdos do mundo. Elas vêm de diferentes períodos da minha vida, sim, mas agora soam de outra maneira porque o mundo parece muito louco.

P. Alguns artistas veteranos acabam transformados em monumentos. O senhor, ao contrário, continua debatendo com o presente. A nostalgia o incomoda?

R. Não, mas me sinto atento ao que está acontecendo. Vejo a complexidade e a dificuldade das questões internacionais e nacionais. Isso inclusive influencia minha escolha de canções.

P. O movimento artístico conhecido como Tropicália, no fim dos anos 1960, defendia a absorção da cultura estrangeira em vez de se proteger dela. Essa ideia ainda faz sentido na era digital?

R. O mundo mudou muito. Aquelas ideias foram saudáveis para o Brasil durante muitos anos. Mas hoje, com o mundo digital e as transformações tecnológicas, a questão é outra. Muitas pessoas novas surgem constantemente nas redes sociais e é muito difícil saber quem é realmente especial. A própria ideia de uma “estrela cultural” pertence mais ao passado. Nós queríamos reconhecer que o Brasil fazia parte do mundo e absorver influências sem nos submetermos a elas. Isso continua importante para mim, embora agora tudo aconteça de forma muito mais rápida e confusa.

P. Esse movimento se alimentou fortemente da cultura anglo-saxã, especialmente dos Beatles.

R. Os Beatles foram um fenômeno extremamente interessante na história da canção e do mundo. Queríamos reconhecer sua força criativa sem nos colocarmos abaixo deles. Entender que faziam parte do mundo em que vivíamos, ao mesmo tempo em que continuávamos fazendo música brasileira. Admirávamos a liberdade criativa que demonstravam e a maneira como ampliavam constantemente suas possibilidades artísticas, mas a intenção nunca foi imitá-los, e sim dialogar com essa energia a partir da nossa própria tradição.

P. O senhor sempre combateu o purismo cultural.

R. Porque ele não pode ser verdadeiro, especialmente em países coloniais como o nosso. Nas Américas não existe pureza cultural. Queríamos mais energia criativa e, por isso, não aceitávamos uma defesa fechada da tradição. Mais tarde descobrimos as ideias de Oswald de Andrade [poeta e ensaísta] e a noção de “antropofagia cultural”: devorar influências do mundo dominante para transformá-las em algo nosso. Essa visão complexa da cultura ainda me parece válida.

P. A canção Alegria, alegria parecia, em 1968, anunciar um Brasil moderno e aberto. O que o senhor sente ao olhar para o Brasil de hoje?

R. Já era uma canção irônica naquela época. Estávamos sob a ditadura militar. Havia prazer cotidiano na canção, sim, mas também uma visão amarga. Essa ironia continua existindo hoje. Fiz um álbum há alguns anos, Meu coco [2021], que contém canções muito críticas ao mundo digital e ao Vale do Silício. Uma visão amarga, embora complexa.

P. O senhor sofreu prisão e exílio durante a ditadura. Preocupa-se com o retorno de certas nostalgias autoritárias?

R. Sim. Há pessoas que dizem publicamente que gostariam que a ditadura militar voltasse. E dizem isso com muita naturalidade. Para mim, isso é insuportável. A prisão, o confinamento e o exílio foram experiências muito dolorosas. Ficamos presos durante dois meses, depois confinados por vários meses em Salvador e, em seguida, exilados por mais de dois anos. Isso inclusive mudou a maneira como encaro o mundo.

P. Durante anos o senhor foi criticado tanto por conservadores quanto por alguns setores da esquerda. Isso o fez sentir-se mais livre?

R. As críticas vindas da esquerda nos fizeram sofrer, claro, mas faziam parte do debate cultural. Certamente me fizeram sentir mais livre. O que foi doloroso foi a atitude dos militares: a prisão, o confinamento, o exílio. Isso chegou a mudar a minha coragem.

P. Sempre há beleza em sua obra, mesmo quando o senhor fala de assuntos dolorosos. A estética ainda é uma forma de resistência?

R. Sim, sem dúvida. É preciso ser assim.

P. O senhor defendeu a ambiguidade estética e sexual muito antes de isso se tornar algo comum. Hoje existe mais liberdade real ou apenas mais exposição?

R. Agora me parece que existe mais exposição do que qualquer outra coisa. Quando escrevi Verdade Tropical [uma autobiografia de 1997], eu dizia que a esquerda precisava prestar mais atenção às questões raciais, sexuais e comportamentais. Mas hoje me parece que há um excesso de racialização, de sexualização e de ênfase nas questões de gênero. Isso gera muita confusão.

P. Compor canções ainda o emociona?

R. Sim, continuo sentindo esse desejo. Mas a capacidade parece reduzida pela velhice. Ainda assim, continuo fazendo isso.

P. O que o senhor preservou daquele jovem baiano que chegou a São Paulo nos anos 1960?

R. Continuo reafirmando as coisas interessantes que aquele jovem começou a fazer. Mas agora compreendo melhor o que significa ser velho e ver como o mundo muda.

P. Quando pensa no futuro do Brasil, o que predomina: o otimismo ou a preocupação?

R. Neste momento, a preocupação predomina em mim; às vezes, uma espécie de desencanto. Tento evitar uma visão excessivamente sonhadora da realidade. A música popular brasileira continua representando uma das grandes forças culturais do país, mas hoje as coisas estão tão feias... O Brasil parece incapaz de salvar a si mesmo. Mas, ao mesmo tempo, ainda tenho a sensação de que ele pode dizer algo importante ao mundo, trazer uma presença diferente, outra sensibilidade. Essa sensação não morreu dentro de mim.

Tradução: Gustavo H. Coelho.

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