Pedaços assim para postar
Escrevo pedaços assim para postar. Não desenvolvo. Não sei se chego a concluir. Outros estão em outro lugar. Vou ver se acho outros pedacinhos e junto aqui depois.
Li o livro de Tarik de Souza todo: João Gilberto e a Insurreição Bossa Nova. São tantas as menções a grupos que se formaram no pré, no durante e no pós que não consigo achar nessa minha memória de oitentaetresão um jeito de comentá-las. Só agradeço e me prometo procurar ouvir. A palavra "insurreição" no título me cativou. Vi ali logo o Tarik, ainda tão menino e já jornalista, que pediu a Drummond e a mim que traduzíssemos letras dos então surpreendentes Beatles. O livro de agora diz o que a bossa nova foi, o que ela significou. Eu tenho João Gilberto como centro definidor de uma imensa virada que o Brasil deu, que minha vida deu. Assim, o trabalho de Tarik defende o que foi e é mesmo de grande importância para nós. A ênfase com que ele trata o fenômeno Jorge Ben Jor (mesmo em pequenos períodos e frases simples) prova que ele saca o essencial. Quando finalmente chega a JG, tudo é mais detalhada descrição e narração do que interpretação. Esta se mostra no poético prefácio, no título e no aqui também revisitado JBJ.
Viagem do Recado de José Miguel Wisnik arrebata logo com o ensaio sobre Chopin. Tenho lido muitos livros, o que me deixa espantado com a perda da memória do que li em tantos outros pela vida. Godard disse uma vez que ao terminar de ler um livro jogava-o pela janela. Ri disso. E gostava de admirar o cinema de Godard. Mas nunca me imaginei jogando livros fora. O que nunca fiz foi sublinhar trechos que queria reler ou repensar. Eu tinha uma memória que me levava a saber em que parte do livro estava essa ou aquela frase ou ideia, inclusive se isso se encontrava numa página do lado direito ou do esquerdo, além de em mais ou menos que altura da página.
Outro dia vi Demetrio Magnoli comentando na TV um estudo americano que demonstrava que o envelhecimento do cérebro se dava aos 83 anos. Tenho 83 anos. Esqueço nomes que nunca imaginei poder esquecer. Palavras tardam mais a se revelar na minha cabeça de falante ou escrevente. Títulos de filmes. Muita coisa mudou na minha cabeça (e não só) de modo notável desde os meses finais de 2025 até aqui. Também nunca organizei minhas estantes. Vejo o quanto eu confiava na minha memória. O livro de Wisnik (que é uma coletânea de artigos e ensaios seus organizada por Kristof Silva) abre com um texto exuberante sobre Chopin.
Muita coisa de música e de história é apresentada com grande luminosidade. Wisnik é meu amigo. Mas ainda não falei nada com ele sobre esse livro. É que volto a ler trechos e me prometo ouvir Chopin (e, pelo menos, Liszt) com atenção, sem que tenha ainda descoberto quando fazê-lo. Faz muito tempo que não ouço música clássica - e algum que não ouço música nenhuma. E estou lendo e relendo Viagem do Recado ao mesmo tempo em que leio livros irresistíveis que me caem nas mãos. Parditude, Hipocritões e Olhigarcas - além de vários textos de Freud traduzidos por Paulo Cesar de Souza. E, para ser sincero, alguns outros volumes cujos nomes não me vêm à mente agora. O de Zé Miguel é uma extravagância de luz. A mirada sobre o Mário de Andrade tratando de música nos tempos da Semana de Arte Moderna (além do estudo de seu trabalho literário), assim como o pensamento complexo sobre o caso Villa-Lobos, me aproxima dos que não tinham me apaixonado como Oswald me apaixonou. Mas antes do modernismo, Zé vai a Machado. Especificamente àqueles contos que têm músicos como protagonistas. "Um homem célebre" retoma o conflito do instrumentista de um conto escrito 10 anos antes, narrando as angústias de um compositor que faz sucesso com polcas populares mas vê com tristeza sua incapacidade de criar peças eruditas. Wisnik pensa nos contos e na posição do autor na história da literatura brasileira. Este segundo é um conto que já li várias vezes através dos anos. A interpretação de Zé Miguel é arrebatadora. Sem falar nos textos sobre Gil, sobre Chico, sobre mim. A canção é tomada pelo que ela é nesse livro luminoso.
Venho escrevendo e guardando esses textos, à espera de um que os justifique. Depois de meses, já li tantas outras coisas ("Agulha em Palheiro", de Camilo Castelo Branco (deslumbrante!); "Ideias para renovar as esquerdas", de Juliano Medeiros; "Quereres de Caetano Veloso", de Leandro Maia... e ontem me chegou aqui a edição que comemora os 70 anos de "Grande Sertão: Veredas" (onde reencontro a palavra "ideia" sem o acento agudo no e, parte do "acordo" ortográfico que veio da ABL e que nunca engoli direito - nem os portugueses - mas com aqueles circunflexos que Rosa teimava em usar em corvo ("côrvo"!) ou doido ("dôido"!). Grande Sertão 70 é Rosa na ABL? Vou reler. Alguém me mandou uma tradução dele para o inglês. Ainda não pude ler (pelo que peço desculpas ao tradutor), mas em inglês não há questões de acentuação. Embora alguns francesismos sejam motivo para alguns anglófonos manterem um ou outro acento agudo.
Caetano Veloso, 16/08/2026.
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