Aquarela do Brasil

Desde menino ouço piadas a respeito da existência ou não da palavra "inzoneiro", o que ela quereria dizer etc. Hoje parece mais intrigante - e, para mim, mais interessante - a escolha da palavra "mulato", cuja existência é indiscutível e cujo significado não deixa espaço para dúvidas. Já não parece um mero lugar-comum o fato de, no nosso Hino Nacional extra-oficial, o Brasil ser chamado de mulato. No bolero-exaltação "Cocodrilo Verde", Cuba é chamada de "carcajada mulata". O que querem (o que podem) essas expressões da música ligeira? M. Fernandes diz que nosso verdadeiro Hino Nacional, nossa "Marselhesa", é o "caminhando" do Vandré. Bem, não sou muito chegado a música francesa mas, mesmo aí, prefiro "La Vie en Rose" à Marselhesa.

Cantei a "Aquarela" em Paris, em 70. Era uma interpretação que misturava doçura, melancolia, raiva e humor. A uma certa altura, eu largava o violão e, de pé, fazia uns trejeitos de Carmen Miranda minimalizados. A platéia estava cheia de brasileiros exilados e franceses de esquerda. Todos sentimos um misto de prazer e constrangimento. Lembro que Roberto Shwart depois criticou (não por escrito) o número (a escolha da canção, o modo de abordá-la etc.) na perspectiva da sua crítica ao tropicalismo em geral. Neste momento, em plena fase neo-tropicalista, acho que ele então estava por fora.

Voltei a cantar (profissionalmente, quero dizer) a "Aquarela" com o João Gilberto e o Gil para o LP "Brasil". Dos três, eu sou o que pior canta naquele disco. Mas o interessante é que, antes de decidir o que gravar o João perguntava com frequência: "será que já é o tempo de cantar a "Aquarela do Brasil"?". Ele tem uma intuição da oportunidade de um gesto estético muito profunda e muito angustiada. A pergunta dele era a grande pergunta. Entendendo isso, eu nunca consegui gostar da famosa versão de Elis, meio atonal, meio depressiva, da "aquarela".

Não sou o maior fã de "Brasil, o filme", mas quando o vi, em Paris, chorei várias vezes com os arranjos da melodia de Ary no fundo musical. Sting cantou conosco "Isso aqui o que é" e perguntou de quem era a canção. Ao saber que era do mesmo que tinha composto "Brasil" e "Bahia" ("Na Baixa do Sapateiro") disse: "odeio esses caras que fazem todas essas músicas lindas".

João Gilberto teve uma pequena correção a fazer. Pelo menos eu penso que antigamente a "morena sestrosa" era "de olhar indiscreto", o que obrigava o cantor a fazer um melisma na sílaba cre. João mudou para "Indiferente". Ou que acho que ele mudou. Ele diz que o Ary tinha feito assim e alguém tinha cantado do outro jeito. João recompõe os compositores.

Fechemos provisoriamente a cortina do passado.

Caetano Veloso, s/d.


Agradecimentos: Pedro Ferrari e Gustavo H. Coelho.

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