Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Textos

Aquarela do Brasil

Imagem
Desde menino ouço piadas a respeito da existência ou não da palavra "inzoneiro", o que ela quereria dizer etc. Hoje parece mais intrigante - e, para mim, mais interessante - a escolha da palavra "mulato", cuja existência é indiscutível e cujo significado não deixa espaço para dúvidas. Já não parece um mero lugar-comum o fato de, no nosso Hino Nacional extra-oficial, o Brasil ser chamado de mulato. No bolero-exaltação "Cocodrilo Verde", Cuba é chamada de "carcajada mulata". O que querem (o que podem) essas expressões da música ligeira? M. Fernandes diz que nosso verdadeiro Hino Nacional, nossa "Marselhesa", é o "caminhando" do Vandré. Bem, não sou muito chegado a música francesa mas, mesmo aí, prefiro "La Vie en Rose" à Marselhesa. Cantei a "Aquarela" em Paris, em 70. Era uma interpretação que misturava doçura, melancolia, raiva e humor. A uma certa altura, eu largava o violão e, de pé, fazia uns trejeitos d...

Quem viu Maria Bethânia (1965)

Quem viu Maria Bethania aparecer de repente na noite de um Rio triste na preparação do carnaval; quem assistiu o seu corpo gritar por um carnaval maior; compreenderá que êste disco é um acontecimento importante: o início da divulgação em larga escala do trabalho de um artista intenso e urgente, como têm sido os grandes novos artistas brasileiros. Quem, na Bahia, ouviu Bethania prometer-se cantar como se todo o povo brasileiro cantasse junto ("sou filha de Caymmi como todo baiano; aluna de Jobim e João Gilberto, como qualquer nôvo sambista; mas sou também irmã de Noel e de Zé Kéti e minha vocação é o carnaval."), quem cantou com ela e esteve a seu lado no momento da escolha dos caminhos, verá com amor e cuidado que, irremediavelmente, sôbre as costas da irmã já pesam as coisas grandes para as quais ela mal se preparara: dar de volta ao Brasil o samba que aprendera com seu povo; ser fiel às côres e dores da Bahia; salvar o carnaval. Quem, mais longe, viu Bethania nascer em Sant...

Contraduzindo (2019)

Neste disco tardio, toda a beleza rascante de sua voz e de suas composições aparece de modo brilhante e instigador. Experimental e místico, moderno e pessoal, Tuzé é um caso único no impressionante mundo musical da Bahia. Ele era um tesouro guardado. Agora acho que chegou o momento de o Brasil conhecer a natureza e a dimensão de sua obra. Caetano Veloso. Texto de apresentação do disco "Contraduzindo" de Tuzé de Abreu, lançado em 2019. 

Carta sobre Rock’n’Raul (2000)

Caro fulano de tal, Se você de fato admira e respeita Raul (eu o respeito e admiro), não faz sentido considerar minha canção “Rock’n’Raul” como uma agressão ou ofensa à sua memória. O que é que faz você pensar que ali eu demonstro desprezo pela música dele? Na verdade, falando na primeira pessoa do singular, eu concluo que “minha alegria, minha ironia é bem maior do que essa porcaria”, ou seja, que a força irônica e vital da música de Raul é maior do que os zés-manés e caetanos que comentam sua vontade de ser americano — e é maior do que a própria vontade de ser americano, um traço da personalidade de Raul que ele reiteradas vezes me revelou, como também a Rita Lee, e que, de resto, esteve sempre patente em sua obra. Um traço que é compartilhado com muitos outros brasileiros que, no entanto, não têm a coragem de dizê-lo assim com todas as letras. Além disso, a música diz: “e hoje olha os mano”, colocando o Raul e seu culto ao rock como precursor central do movimento do rap brasileiro, ...

Revisão muito incompleta do ano de 2018 (2018)

O ano que acaba foi difícil. Na sexta (21) à noite vi Roberto Carlos cantar "Como Dois e Dois" na TV. Fiquei surpreso e profundamente emocionado. Canção que escrevi no exílio e que agora soa tão violentamente atual. Senti Roberto com a mesma intensidade de quando ele lançou "Se Você Pensa", de quando ele cantou, em minha casa de Londres, "As Curvas da Estrada de Santos", de quando ele me mostrou "Debaixo dos Caracóis". A sintonia dele com nossa história profunda reafirma, volta e meia, o alerta que Bethânia me deu sobre a Jovem Guarda: "Eles têm vitalidade". Entrei na cozinha para pegar um biscoito de arroz e vi na TV o título "Muito Romântico": era o especial natalino de Roberto. Parei, me perguntando, será que ele vai cantar essa minha música? Não sei se ele a cantou: havia convidados na sala e eu só vi uns cinco números (!). "Eu Te Proponho", "Se Você Pensa", Michel Teló, Alejandro Sanz. Principalmente o...

João, o calígrafo chinês (2008)

João Gilberto é toda a bossa nova mas é algo distinto dela. Está para além de todas as conquistas que a ela são justamente creditadas, embora nenhuma dessas conquistas possa ser sequer imaginada sem ele. Tom Jobim é o maior compositor daquele período -e suponho que o maior compositor de canção popular da história do Brasil- e, como toda individualidade artística, também está para além de qualquer movimento. Mas, quando Tom se expande para além da bossa nova, ele cria peças orquestrais semi-eruditas, longas, não raro impregnadas de temas rurais. Ou seja, ele se espalha para territórios estranhos à bossa nova. Com João acontece coisa bem diferente. Tudo o que ele faz é um aprofundamento do gesto estético que fez com que, do estilo dele, a bossa nova nascesse. Cada abordagem nova de um velho samba de Herivelto ou de uma oitentista canção de Lobão nos leva a entender de novo a bossa nova, tudo o que ela fez e o que ela é -e tudo o que ela deixou de fazer e não pode ser. Estamos sempre mais...

Release do disco "Recanto" de Gal Costa (2011)

Quando voltei do exílio londrino, me apresentava usando batom vermelho. Meu cabelo descia até os ombros e era repartido no meio. Um retrato vivo de Gal, pensado como uma homenagem a ela ter encarnado os tropicalistas expatriados durante aqueles anos. Rimbaud: “J´est un autre” – “eu é um outro”. Anônimo favelado carioca: “é nós”. O disco é meu trabalho composicional de agora. Quis fazê-lo com o som da voz dela. Não se tratava de meramente relembrar o passado de Gal, mas de produzir com ela uma peça que fosse forte como expressão atual e, assim, estivesse à altura do nosso histórico. Sonhei com isso por um bom tempo. É que tudo o que conto em “Verdade Tropical” (do reitor Edgard Santos à axé music, passando pela Banda Tropicalista de Rogério Duprat) ficaria sem substância se a voz de Gal não soasse agora em contexto contundente. Finalmente comecei a compor e a imaginar arranjos e sonoridades. Chamei Moreno, que é afilhado dela e um mago no comando de um estúdio, e ele logo me disse que K...

Recanto (2011)

Gal é uma das mais emblemáticas figuras da música popular brasileira moderna. Foi A cantora tropicalista por excelência: lançou “Baby” e defendeu “Divino, maravilhoso” no festival de 1968. Depois que Gil e eu fomos presos e exilados, ela segurou a estética ousada do grupo baiano (que tinha se associado aos paulistas Mutantes, Duprat, Medaglia etc.) em espetáculos como Fa-Tal, Gal a Todo Vapor. Seu nome batizou o trecho de praia mais badalado da Ipanema dos anos 1970. Ela foi considerada por Danuza Leão a mulher mais elegante do Brasil daquele tempo. Mais tarde, com Gal Tropical, Índia, Cantar e uma sucessão de discos e shows inesquecíveis, ela enriqueceu o imaginário brasileiro. Gal é pessoa colada a mim. Desde que nos encontramos que nosso culto radical a João Gilberto nos aproximou a ponto de quase não precisarmos (nem conseguirmos) conversar nada. Ela é a voz de “Minha voz, minha vida”, a mulher sagrada de “Vaca profana”, o aparelho vocal de “Meu bem, meu mal”. Tom Jobim disse até m...

Carta ao Papa Francisco (2023)

Vaticano, 28 de setembro de 2023 Vossa Santidade, Papa Francisco, É com alegria especial que chego aqui, na Santa Sé, para este encontro. Sou da cidade de Santo Amaro da Purificação. E desde menino acompanhava encantado a minha mãe, Dona Canô, com seus gestos de simplicidade, afeto e sabedoria. Ela lutava em defesa da despoluição do Rio Subaé e fazia campanhas pela restauração da igreja de Nossa Senhora da Purificação, da qual sempre foi ardorosa devota. Em 2007, na festa do centenário dela, a família, amigos e a cidade de Santo Amaro promoveram durante o ano uma série de homenagens à dona Canô. E o que nela provocou maior emoção foi a Igreja da Purificação receber a imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida. É com esses ensinamentos de paz que chego aqui, diante de Vossa Santidade. Nesses 10 anos de pontificado do primeiro Papa da América Latina, jesuíta e de nome Francisco, tenho acompanhado suas posições denunciando injustiças, alertando para a situação dos migrantes e sendo o aut...

Discurso na cerimônia de recebimento de título Doutor Honoris Causa pela Universidade de Salamanca (2023)

Rector magnífico de la Universidad de Salamanca, y excelentísimas e ilustrísimas autoridades que nos acompañan. Devo decirles que la única otra vez que tuve el honor de recibir un Doctorado Honoris Causa fue en la Universidad de Bahia - y el título me fue entregue sobre lo que allí se llama un "trio elétrico": un camión con amplificadores de guitarras electrificadas donde músicos de carnaval tocan para hacer bailar la multitud en la calle. Pero me parece imposible estar en Salamanca y no pensar en lo que escribió Miguel de Unamuno. Soy un cantante de canciones populares. Los libros que tengo nunca están organizados y mis lecturas son, en su mayoría, de obras que me caen en las manos. Hace muchos años que leí Unamuno y no sé donde estarán los dos libros suyos que leí. Pero es seguro que mucho de lo que allí encontré queda en mi cabeza. Es sobretodo inolvidable la mirada de Unamuno sobre la lengua portuguesa como un castellano sin huesos. En su decisión de ver España como una u...

Transa (2023)

Eu não conseguia gostar nada de estar fora do Brasil. Depois de fazer o primeiro disco lá (o que tem meu nome como título e "London, London" como canção marcante), decidi chamar meus amigos e grandes músicos Jards Macalé, Tutty Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza. Tutty e Áureo já estavam em Londres. Macau e Moacyr, no Brasil. Ambos foram. Começamos a ensaiar numa igreja que ficava perto de minha casa no norte da cidade. Depois fomos para um espaço de ensaios num bairro mais animado. As canções me saíam com facilidade. Eu estava me sentindo quase fluente em inglês. E aprendi a gostar fisicamente de coisas para as quais nem dava atenção antes: os gramados dos parques, os bancos de madeira que havia em todos eles, a graça das ruas curvas, chamadas "crescents", os táxis confortáveis. Fiz as canções num inglês troncho, mas que eu via como metalinguístico. O produtor Ralph Mace (que tinha recusado "Lost in the Paradise" e "Empty Boat") achou a...

Carta sobre reedição do Araçá Azul (1987)

Imagem
1 - Há muito tempo que venho pedindo uma reedição do Araçá Azul. Você me deu uma ótima notícia. Muita gente, em toda parte, me pede pistas de onde encontrar um exemplar e nem mesmo eu tenho um. Você viu ontem a menina que toca flauta e percussão com Sara Gonzalez perguntando pelo "disco difícil de achar e que tem Tu Me Acostumbraste". Quando esse disco saiu, fizeram uma tiragem grande pra a época. O público procurou (era meu 1º LP brasileiro depois da volta de Londres, seguindo-se a "Transa" e saiu quase ao mesmo tempo que o "Juntos e ao vivo" com Chico Buarque - ambos de enorme sucesso), mas o número de pessoas que, depois de tentar ouvir a 1° faixa do lado A, voltava às lojas para devolver foi tão grande que as lojas convenceram a própria gravadora a aceitar as devoluções. Eu pensei que todos esses discos devolvidos ficariam guardados, arquivados, com capa e tudo, esperando um tempo de aceitação. Mas não. O que será que eles fazem com os discos? Derretem...

Agradecimentos - Verdade Tropical (1997)

Cristiana Lavigne leu o amontoado de escritos que crescia na mesma medida em que ia se tornando intratável, e, apontando elos e sugerindo cortes, me deu de volta a esperança de fazer dele um livro.  Rubem Fonseca (que, num diálogo telefônico internacional com Cristiana Lavigne, ajudou a resolver um problema de informática) leu o material já organizado e, entre comentários muito encorajadores (também ao telefone), aconselhou (na verdade impôs) três cortes curtos e precisos como as frases que o fizeram famoso. (Duas dessas ordens foram imediatamente seguidas à risca, e uma delas — depois de muita hesitação — apenas em parte.) Mais longe e mais perto, Luís Tenório de Oliveira Lima me deu, logo que voltei de Londres, os sete volumes de Em busca do tempo perdido . Finalmente, ainda mais longe mas muitíssimo mais perto, Rodrigo Velloso me fez, no final dos anos 50, uma assinatura da revista Senhor , e assim tomei contato com os textos de Clarice Lispector, cuja obra Rodrigo passou a comp...

Carta a Roger Waters (2015)

Querido Roger, Há cerca de um mês recebemos sua carta através de Pedro Charbel, um jovem brasileiro que faz parte do Movimento BDS. Pedro veio à minha casa, onde ele nos conheceu, a Gil e a mim — junto com nossas empresárias —, acompanhado de uma jovem brasileiro -israelense, Iara Haazs, uma judia (que também está com o BDS), para pedir que cancelássemos o show, em Tel Aviv, no próximo mês. Antes disso, nós recebemos a carta de um importante militante dos direitos humanos no Brasil com o mesmo pedido. Hoje nós recebemos outra, desta vez do próprio Desmond Tutu (ele foi citado na sua e em todas as outras cartas e mensagens que recebemos sobre o assunto). Tentarei responder a ele também. Quando a África do Sul estava sob o regime de apartheid, e eu soube que artistas estavam se recusando a tocar lá, concordei como que automaticamente com tal decisão. A complicada situação no Oriente Médio não me mostra o mesmo tipo de imagem preto-no-branco que o racismo oficial, aberto, da África do Sul...

Depois do colonialismo mental (2018)

O pensamento de Roberto Mangabeira me fascinou, isso já nos anos 1980, porque vi nele um modo insólito de expressar-se o Brasil e a esquerda. A partir de um artigo seu que li na imprensa, em que ele, então brizolista como eu, analisava a diferença entre a política ligada ao trabalho organizado, nascida do sindicalismo desenvolvido nas regiões mais ricas do país, e a mirada mais ampla, desafiadora, na direção das maiorias desorganizadas do povo brasileiro, procurei primeiro acompanhar seus textos, onde os encontrasse, e logo tentar chamar a atenção de outros leitores para eles. Eu o mencionava nas entrevistas que dava. Por mais de ano vi tais menções serem cortadas de suas transcrições impressas. A originalidade do conteúdo do que Mangabeira dizia mostrou ter mais força sobre mim do que as razões esboçadas pelos que o rejeitavam. Neste livro que reúne artigos por ele publicados ao longo dos últimos anos, pessoas interessadas em questões políticas, nas possibilidades do Brasil - ou mesmo...

Poema visual (1974) - Caetano Veloso

Imagem
Foto: Thereza Eugênia. Fonte: Revista Polem, N. 1. Primeira e única edição, 1974. Editora Lidador, 1974. Editor: Hélio Raimundo Santos Silva. Planejamento gráfico: Ana Maria Silva de Araújo. Coordenação editorial: Maurício Cirne. Revista da mesma época da Revista Navilouca. Brochura. Capas com pequenas avarias na lombada. 96 páginas. Ilustrada. Com a participação de Augusto Campos, Torquato Neto, Décio Pignatari, entre outros.

Olavo faz incitação à violência; convoco meus concidadãos a repudiá-lo (2018)

Olavo de Carvalho sugere em texto que, caso Bolsonaro se eleja, imediatamente à sua posse seus opositores sejam não apenas derrotados mas totalmente destruídos enquanto grupos, organizações e até indivíduos. Ele diz que os que consideram Bolsonaro uma ameaça à democracia não estão lutando para vencer uma eleição e sim "pela sobrevivência política, social e até física". Isso é anúncio de autoritarismo matador. Bolsonaro já disse que a ditadura matou pouco, já apareceu usando tripé de câmera como fuzil a metralhar petistas, já louvou o torturador e assassino coronel Brilhante Ustra. Quando atacado a faca por um maníaco, todos os outros concorrentes à presidência condenaram veementemente o atentado e seu autor; quando um eleitor seu matou um artista baiano que declarara voto no PT, Bolsonaro disse que não tinha nada a ver com isso. Esse texto de Olavo anuncia uma escalada de ações violentas e conclama seus seguidores a perpetrá-las tão logo Bolsonaro chegue (se ele chegar) ao Al...

Tempos sombrios estão vindo para o meu país (2018)

RIO DE JANEIRO - “O Brasil não é para iniciantes”, dizia Antonio Carlos Jobim. Jobim, que escreveu “A Garota de Ipanema”, foi um dos músicos mais importantes do Brasil, a quem podemos agradecer pelo fato de que os amantes da música em todos os lugares precisam pensar duas vezes antes de classificar o pop brasileiro como “world music”. Quando contei a um amigo americano sobre a fala do maestro, ele respondeu: "Nenhum país é". Meu amigo americano tinha razão. De certa forma, talvez o Brasil não seja tão especial. Neste momento, meu país está provando que é uma nação entre outras. Como outros países do mundo, o Brasil está enfrentando uma ameaça da extrema direita, uma tempestade de conservadorismo populista. Nosso novo fenômeno político, Jair Bolsonaro, que deve vencer a eleição presidencial no domingo, é um ex-capitão do Exército que admira Donald Trump, mas parece mais com Rodrigo Duterte, o homem forte das Filipinas. Bolsonaro defende a venda irrestrita de armas de fogo, pro...

MaRIO DE JANEIRO Testino (2009)

O que distingue as fotografias de Mario Testino das de outros visitantes inspirados é que Mario captura a essência interna da cidade. Mario não apenas tem o Rio incorporado no seu próprio nome, ele tem as paisagens urbanas cariocas, e a amizade de seus habitantes, incrustadas em sua alma. A impressão deixada pelas fotografias de Mario do Rio é a de um amor complexo, rico e profundo, carregado de intimidade e de lucidez de sonhos trazidos à realidade. Caetano Veloso. Prefácio do livro "MaRIO DE JANEIRO Testino" do fotógrafo Mario Testino - Editora Taschen, 2009. 

Nana Caymmi (1992)

Sou louco por Nana. Ela é a verdadeira Ponta de Areia. Ponto final da Bahia-Minas. Que, no caso dela, é uma estrada mesmo muito natural. Sestrosa, sensual e marítima por parte de cá; sombria, litúrgica e desconfiada por parte de lá; ritmo vital - harmonia metafísica; os dois lados da caverna da sua voz são varridos por fachos de luz celeste. Sonho com ouvi-la cantar minha "Itapuã". Quando um bando de idiotas a vaiaram nos festivais, eu ia para o quarto dela e de Gil e pedia que ela cantasse sem parar. Ela é alguém com quem a gente pode se zangar que não afeta o fundamental. Como pode alguém ser tão vulgar e tão nobre ao mesmo tempo? Hoje ela ainda xinga, ainda grita, ainda agride, ainda mente: mas já é tudo uma autoparódia feita por uma mulher capaz de grande serenidade. Ela transcende. Caetano Veloso. Jornal O Globo, 24 de abril de 1992.